Trump critica corretamente o protecionismo, mas peca na solução

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Desde que Donald Trump foi confirmado como o candidato à presidência pelo Partido Republicano, um estranho fenômeno ocorreu: jornalistas, analistas, economistas e burocratas se tornaram entusiastas do livre do comércio e passaram a criticar o presidente pelas suas posições “protecionistas”, algo que há pouco tempo todo o mainstream pregava sua necessidade para proteger empregos locais.

O tempo passou, Trump foi eleito, tirou os Estados Unidos do Acordo de Associação Transpacífico (TPP) e neste momento ele analisa a retirada do país da NAFTA, duas medidas nada protecionistas. A sua equipe econômica também levará ao Congresso em breve um plano visando um radical corte tributário de empresas americanas e cidadãos, diferente do prometido às companhias estrangeiras. Em seu discurso aos congressistas, ele disse:

Atualmente quando embarcamos produtos para fora da América qualquer outro país nos faz pagar tarifas e taxas muito altas. Quando países estrangeiros embarcam seus produtos para a América, não lhes cobramos nada, ou quase nada.

Acabei de me encontrar com representantes e trabalhadores de uma grande companhia americana: a Harley Davidson. De fato, eles expuseram orgulhosamente cinco de suas magníficas motos, fabricadas nos EUA, no pátio frontal da Casa Branca[…]. Em nossa reunião eu lhes perguntei: “Como estão indo? Como estão indo os negócios”? Disseram que estavam bem. E perguntei mais: “Como estão indo em outros países, principalmente nas vendas internacionais”? Disseram-me – sem se quer reclamarem, porque têm sido mal tratados por tanto tempo que se habituaram a isso – que é muito difícil fazer negócios com outros países porque eles taxam os nossos bens a níveis tão altos. Eles disseram que no caso de um outro país eles põem taxas, nas suas motos, de 100%. Eles nem pediram mudanças, mas eu estou. Eu acredito… Eu creio firmemente no livre comércio, mas terá que ser também comércio justo. Já faz muito tempo que não temos comércios justos.

 

Trump neste trecho de seu discurso lembrou algo que muitos ignoram: os outros países taxam e também são protecionistas. Apesar de uma considerável parcela de países possuir um mercado relativamente aberto, de acordo com o ranking do Heritage Foundation, todos eles também têm seu lado protecionista, como a Alemanha, pertencente ao grupo dos que são “muito livres” e famosa pela proteção a sua forte indústria automobilística.

Quem também deixa nada a desejar no quesito protecionismo é o Brasil. Em um ranking que avaliou 75 países, o Brasil ficou em 67° e é considerado o mercado mais fechado do G20. Para o senador e até pouco tempo ministro das Relações Exteriores, José Serra (PSDB-SP), esta imagem brasileira não passa de um folclore, embora o país seja conhecido como um dos países que mais protegem as montadoras de veículos e impõe muitas barreiras ao investidor estrangeiro.

No Brasil, existe a manutenção de monopólios através de estatais, como o caso da Petrobras e também oligopólios promovidos, por exemplo, pela Anatel no setor de telecomunicações. Uma prática parecida ocorreu durante os últimos governos ptistas através da política das empresas “campeãs nacionais” ao dar generosos créditos via BNDES a um seleto grupo de companhias.

A proteção a certos setores ocorrem em todo mundo, como o bancário e também o petrolífero, realizado pela  França e China, além dos subsídios agrícolas que o Brasil e os países ricos concedem aos empresários do ramo e atrapalham os concorrentes de países com economias mais fracas. Esta prática possui uma força maior principalmente na União Europeia, que somados os países membros são os maiores provedores desta política. O mais interessante é que a chanceler alemã, Angela Merkel, que é um dos líderes mais críticos ao presidente norte-americano, fecha os olhos para as práticas de um bloco econômico o qual ela se orgulha de defender.

Portanto, muitos burocratas criticam Trump por causa de sua política. Nada mais hipócrita após observar que todos os países tomam medidas parecidas mesmo que em escalas diferentes para proteger determinados setores de seu mercado interno. Para ficar mais claro, é só observar o grau de liberdade comercial que cada país possui, que qualquer um chegará a conclusão de que não se deve criticar o presidente norte-americano antes de mudar as regras comerciais do país de origem dos críticos,  algo que muitas pessoas não estão dispostas a lutar contra o quadro atual, afinal,tudo não passa de um lobby de empresas estrangeiras, junto aos políticos, temerosas de perder um mercado forte como o norte-americano, enquanto os privilégios em seus mercados locais continuam no mesmo estado e prejudicando concorrentes externos e os pequenos internos.

Trump está certo em criticar o protecionismo de outros países, mas errado ao propor a solução. O ideal não é proteger mais o mercado e as companhias norte-americanas, mas sim buscar apoio pelo mundo de mais abertura de mercado e de menos taxação.

Há um período muito propício para isso. Na França este ano será escolhido um novo presidente, na Holanda e Alemanha também e excluindo o último dos três países, nos outros dois há uma crescente insatisfação com a protecionista União Europeia. O Reino Unido, que se livrou das amarras do parlamento europeu, pode liderar um movimento contra o protecionismo de mercado. E há tantos outros países, como o Chile que trocará de presidente, o Peru que possui um presidente liberal, a Argentina que ainda está em busca de crescimento, o Brasil que está perto de novas eleições, além de contar com outros países que já possuem um mercado bem aberto, como a Austrália e os Emirados Árabes.

Portanto, se Trump quiser um crê em um livre mercado e realmente quiser um mercado justo, está na hora de mudar esta parte de sua política e liderar um movimento contra aquilo que ele mais critica nos outros países: o protecionismo. O momento é propício, ainda mais porque os blocos comerciais, que são os verdadeiros protecionistas, estão aos poucos se desmantelando. Não está na hora de mudar a visão comercial do mundo?

 

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